Algumas fases da vida parecem tirar o chão. Uma separação, uma demissão, uma mudança de cidade, a saída da casa dos pais, a morte de alguém querido, o fim de uma amizade, uma doença na família, uma gravidez inesperada, uma aposentadoria, uma mudança de trabalho, uma crise financeira ou até uma conquista muito desejada podem trazer ansiedade. Nem toda mudança ruim vem apenas com tristeza, e nem toda mudança boa vem apenas com alegria. Quando a vida sai do lugar, o corpo e a mente tentam se reorganizar.

A ansiedade depois de perdas ou mudanças aparece porque o futuro fica menos previsível. O que antes era rotina deixa de existir. A pessoa não sabe como será o próximo mês, como vai se sentir, como vai pagar contas, como vai morar, como vai trabalhar, como vai amar de novo, como vai seguir sem alguém ou como vai se reconhecer em uma nova fase. A mente tenta preencher esse vazio com perguntas: “e agora?”, “e se eu não der conta?”, “e se nada voltar ao normal?”, “e se eu tiver escolhido errado?”, “e se eu nunca mais me sentir bem?”.

Essas perguntas podem ser compreensíveis. Perder algo importante ou entrar em uma fase nova realmente exige adaptação. O problema começa quando a ansiedade transforma a transição em ameaça permanente. Em vez de ajudar a pessoa a se preparar, ela prende a mente em cenários catastróficos, aumenta a vigilância do corpo, dificulta o sono, enfraquece a confiança e faz a pessoa evitar justamente os passos necessários para reconstruir a vida.

Por que mudanças geram ansiedade?

Mudanças quebram previsibilidade. O cérebro gosta de padrões porque eles economizam energia e dão sensação de controle. Quando a rotina muda, mesmo que para melhor, o sistema emocional precisa se adaptar. Novos horários, novas pessoas, novas responsabilidades, novos riscos e novas decisões exigem mais atenção.

Por isso, uma pessoa pode sentir ansiedade ao começar um emprego melhor. Pode ficar insegura ao mudar para uma casa maior. Pode ter medo ao iniciar um relacionamento saudável depois de anos de sofrimento. Pode se sentir perdida ao terminar uma fase acadêmica que desejava concluir. A mudança positiva também pode assustar porque exige uma nova identidade.

Perdas, por outro lado, trazem uma ruptura mais dolorosa. Algo que fazia parte da vida deixa de estar disponível: uma pessoa, uma relação, um lugar, um papel, uma saúde, uma segurança financeira, uma rotina. A ansiedade surge tentando antecipar como sobreviver sem aquilo.

Em linguagem simples, a ansiedade pergunta: “como vou me proteger agora?”. Essa pergunta pode ser útil se leva a passos concretos. Mas pode virar sofrimento quando se transforma em uma busca impossível por garantias.

Perda não é apenas morte

Quando se fala em perda, muita gente pensa apenas em luto pela morte de alguém. Esse luto é profundo e merece todo cuidado. Mas existem muitas outras perdas que também podem mexer com a ansiedade: o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, a perda de uma amizade, a perda de saúde, a perda de uma casa, a perda de uma fase, a perda de uma imagem de si mesmo, a perda de um sonho.

Uma pessoa pode sofrer muito ao perceber que a vida não será como imaginava. Talvez o casamento tenha acabado. Talvez a carreira escolhida não faça mais sentido. Talvez os filhos tenham saído de casa. Talvez o corpo tenha mudado. Talvez um projeto importante tenha falhado. Essas perdas podem ser invisíveis para os outros, mas são reais para quem vive.

A ansiedade aparece porque a perda abre espaço para incerteza. “Quem sou agora?” “Como vou seguir?” “Será que vou conseguir reconstruir?” “E se eu nunca recuperar o que perdi?” A mente tenta encontrar um novo mapa, mas o mapa antigo não serve mais.

Reconhecer a perda é importante. Muitas pessoas tentam minimizar: “não foi tão grave”, “tem gente pior”, “eu deveria superar”. Mas negar a dor não acelera a adaptação. Muitas vezes, só faz a ansiedade aparecer em forma de insônia, irritação, preocupação, tensão e medo.

O corpo em estado de transição

Depois de uma perda ou mudança, o corpo pode ficar em alerta. A pessoa pode sentir aperto no peito, nó na garganta, dor no estômago, tontura, cansaço, tensão muscular, falta de ar, tremores, choro fácil, irritação ou sensação de vazio. Também pode dormir mal, acordar muito cedo, perder apetite ou comer em excesso.

Essas reações não significam necessariamente que a pessoa está “quebrando”. Muitas vezes, são sinais de que o corpo está tentando lidar com uma fase exigente. O sistema emocional está processando algo grande. O corpo sente antes que a mente consiga organizar tudo em palavras.

O problema é quando a pessoa se assusta com essas sensações e começa a interpretá-las como prova de que não vai aguentar. “Se estou assim, vou desmoronar.” “Se meu coração acelera, é porque algo está muito errado.” “Se não consigo dormir, nunca mais vou funcionar.” Esse medo da reação aumenta a própria reação.

Uma frase útil pode ser: “meu corpo está respondendo a uma mudança importante”. Isso não elimina o desconforto, mas reduz a catástrofe. O corpo precisa de cuidado, não de guerra.

Quando a mente tenta prever tudo

Em momentos de transição, a mente tenta prever o futuro para recuperar controle. Depois de uma demissão, imagina meses sem dinheiro. Depois de uma separação, imagina solidão permanente. Depois de uma mudança de cidade, imagina não fazer amigos. Depois de uma doença na família, imagina tragédias. Depois de um erro, imagina que nunca será perdoada.

Prever é uma tentativa de se preparar. O problema é que a mente ansiosa costuma prever pelo pior caminho. Ela não cria apenas planos; cria filmes de desastre. A pessoa pode passar horas pensando e terminar mais cansada, sem nenhuma ação concreta.

Uma pergunta importante é: “isso é planejamento ou preocupação?”. Planejamento termina em um passo. Preocupação termina em mais preocupação. Planejamento diz: “vou atualizar meu currículo amanhã”. Preocupação diz: “e se eu nunca mais conseguir trabalho?”. Planejamento diz: “vou conversar com um advogado ou pessoa de confiança”. Preocupação diz: “minha vida acabou”.

Quando perceber que a mente entrou em previsão infinita, tente voltar para o próximo passo possível. Em transições, quase nunca se resolve a vida inteira de uma vez. Resolve-se uma parte, depois outra.

A ansiedade depois de uma separação

O fim de um relacionamento pode gerar uma ansiedade intensa. A pessoa perde não apenas o parceiro, mas uma rotina, uma identidade, planos, vínculos familiares, segurança, intimidade e uma versão imaginada do futuro. Mesmo quando a separação foi necessária, o corpo pode reagir como se estivesse em perigo.

Depois do término, é comum ter vontade de mandar mensagens, pedir explicações, revisar conversas, olhar redes sociais, imaginar reconciliação, sentir medo de ficar sozinho ou pensar que nunca será amado de novo. A ansiedade tenta fechar a ferida rapidamente, buscando certeza, controle ou retorno ao conhecido.

Mas nem toda urgência deve ser obedecida. Às vezes, a pessoa precisa esperar a onda emocional baixar antes de tomar decisões. Mandar mensagens no pico da dor, insistir em conversas sem segurança ou se expor a humilhações pode aumentar o sofrimento.

Quando o casal ainda precisa conversar, especialmente por filhos, casa, dinheiro ou decisões importantes, pode ser útil buscar mediação profissional. Se há segurança e disposição dos dois, uma terapia de casal 24 horas online pode ajudar a organizar conversas difíceis. Se a crise é individual, com desespero, pânico ou medo de agir no impulso, um psicólogo 24 horas online pode ajudar a atravessar o momento.

A ansiedade depois de perder alguém

A morte de alguém querido pode deixar a pessoa em estado de choque. A ausência parece irreal. A rotina perde sentido. Pequenas tarefas ficam pesadas. Em alguns momentos, vem tristeza profunda. Em outros, vem ansiedade: medo de outras perdas, medo de adoecer, medo de não suportar, medo de esquecer, medo de seguir em frente e parecer desleal.

O luto não é uma linha reta. A pessoa pode alternar choro, raiva, culpa, saudade, anestesia, lembranças, medo e até momentos de riso. Isso pode assustar. Ela pensa: “estou ficando estranho”, “não deveria estar assim”, “por que hoje estou pior?”. Mas o luto costuma vir em ondas.

A ansiedade no luto pode tentar controlar o incontrolável. A pessoa passa a vigiar a saúde de todos, liga para familiares o tempo todo, evita sair, teme notícias, interpreta qualquer sintoma como ameaça. A perda mostrou que a vida é frágil, e a mente tenta impedir que algo parecido aconteça de novo.

Com cuidado, a pessoa pode aprender a honrar a perda sem viver em alerta permanente. O amor por quem partiu não exige que a vida fique congelada. Seguir vivendo não apaga o vínculo; apenas permite que ele encontre outro lugar dentro da história.

Mudança de cidade, casa ou rotina

Mudar de cidade, casa ou rotina pode trazer ansiedade porque mexe com referências básicas. Onde comprar? Com quem contar? Como circular? Que lugares são seguros? Como será a vizinhança? E se eu me arrepender? E se eu não me adaptar?

Mesmo quando a mudança foi escolhida, pode haver luto pelo lugar anterior. A pessoa sente falta de ruas, cheiros, pessoas, hábitos, mercados, horários, pequenos confortos. Às vezes, sente culpa por não estar feliz com uma mudança que “deveria” ser boa.

A adaptação exige tempo. No começo, tudo consome energia porque nada é automático. Até tarefas simples precisam de decisão. Isso pode cansar e aumentar ansiedade. A pessoa pode interpretar o cansaço como prova de que fez a escolha errada, quando talvez seja apenas o corpo se ajustando.

Ajuda criar pequenas âncoras: uma rotina de manhã, um mercado conhecido, um caminho repetido, uma ligação com alguém querido, um canto organizado da casa, um horário de descanso. Em fases de mudança, pequenas familiaridades dão chão.

Perda de trabalho ou mudança profissional

O trabalho ocupa espaço financeiro, emocional e identitário. Perder um emprego ou mudar de carreira pode ativar medo profundo: “como vou pagar?”, “o que vão pensar?”, “e se eu não conseguir outro?”, “quem sou sem esse cargo?”. Mesmo quando a saída foi desejada, a transição pode assustar.

A ansiedade pode empurrar para dois extremos. Um deles é a paralisia: a pessoa evita currículo, entrevistas, contatos e decisões porque tudo parece grande demais. O outro é a ação desesperada: aceita qualquer coisa, manda mensagens impulsivas, não dorme, pesquisa sem parar, compara-se com todos.

O caminho mais saudável costuma ser organizar o problema em partes. Finanças imediatas, rede de contatos, atualização de currículo, busca de vagas, descanso, cuidado emocional, planejamento realista. A pergunta “minha vida inteira vai dar certo?” é grande demais. A pergunta “qual passo posso dar hoje?” é mais útil.

Também é importante separar valor pessoal de situação profissional. Estar sem trabalho, mudar de área ou recomeçar não torna ninguém menor. Pode ser uma fase difícil, mas não uma sentença sobre quem você é.

Mudanças boas também podem assustar

Nem toda ansiedade vem de perdas visíveis. Às vezes, vem de conquistas: passar em uma prova, começar um relacionamento, engravidar, receber promoção, abrir negócio, sair da casa dos pais, mudar para um lugar melhor. A pessoa pensa: “eu deveria estar feliz”, mas sente medo.

Isso acontece porque toda conquista traz novas responsabilidades. Um novo trabalho exige desempenho. Um relacionamento saudável exige presença. Uma gravidez muda identidade. Uma promoção aumenta visibilidade. Sair de casa traz liberdade, mas também contas e solidão.

A ansiedade pode interpretar crescimento como ameaça. Ela pergunta: “e se eu não der conta?”. A pessoa então se culpa por não estar apenas alegre. Mas emoções misturadas são normais. É possível estar feliz e assustado. Grato e inseguro. Esperançoso e cansado.

Permitir essa mistura reduz sofrimento. Você não precisa sentir apenas uma emoção para validar uma fase. Mudanças importantes costumam trazer alegria e medo juntos.

A vontade de voltar ao que era antes

Depois de uma mudança grande, pode surgir uma vontade intensa de voltar ao passado. Voltar para o relacionamento, para a antiga casa, para o antigo emprego, para a rotina anterior, para a versão de si que parecia saber o que estava fazendo. Essa vontade é compreensível. O conhecido parece seguro, mesmo quando não era bom.

A ansiedade gosta do conhecido porque ele é previsível. Mesmo um padrão doloroso pode parecer mais suportável do que uma incerteza nova. Por isso, depois de uma separação, por exemplo, a pessoa pode sentir saudade não apenas do parceiro, mas da estabilidade de ter uma resposta pronta para quem ela era.

Antes de voltar, pergunte: “estou querendo isso porque é saudável ou porque estou com medo do novo?”. Às vezes, há caminhos que merecem ser retomados. Outras vezes, a vontade de voltar é apenas abstinência emocional da antiga rotina.

Dar tempo ao novo é importante. Nem toda adaptação acontece nos primeiros dias. A vida pode parecer estranha antes de começar a parecer sua.

Evitação depois de perdas e mudanças

A ansiedade costuma levar à evitação. Depois de uma perda, a pessoa evita lugares, músicas, pessoas, documentos, conversas, fotos, decisões. Depois de uma mudança, evita explorar a nova cidade, conhecer pessoas, olhar contas, buscar trabalho, falar sobre o que sente. Evitar alivia por alguns minutos, mas pode prolongar o medo.

Nem toda pausa é evitação ruim. Às vezes, a pessoa precisa descansar antes de lidar com algo doloroso. O problema é quando a pausa vira congelamento. A vida fica suspensa. Tudo que lembra a mudança se torna proibido.

A aproximação precisa ser gradual. Não é necessário abrir todas as caixas emocionais de uma vez. Pode começar com um documento, uma ligação, uma caminhada, uma conversa, uma foto, uma tarefa. Pequenos contatos com a realidade ajudam o cérebro a aprender que é possível sentir dor e continuar.

O objetivo não é se forçar brutalmente. É não deixar a evitação decidir o tamanho da sua vida.

Quando a ansiedade vira controle

Depois de perdas, algumas pessoas tentam controlar tudo. Controlam horários, pessoas, mensagens, alimentação, dinheiro, saúde, filhos, parceiro, notícias. A perda mostrou que algo escapou das mãos, e a mente responde tentando fechar todas as brechas.

Esse controle pode parecer cuidado, mas costuma cansar muito. A pessoa fica rígida, irritada, vigilante e incapaz de descansar. Qualquer imprevisto parece ameaça. As pessoas ao redor podem se sentir sufocadas.

É importante diferenciar controle de cuidado. Cuidado cria segurança possível. Controle tenta eliminar qualquer incerteza. Cuidado diz: “vou fazer exames necessários”. Controle diz: “vou checar meu corpo vinte vezes por dia”. Cuidado diz: “vou organizar finanças”. Controle diz: “não posso gastar nada sem pânico”.

A vida depois de uma perda precisa de alguma organização, mas também precisa de flexibilidade. Tentar controlar tudo é uma forma de continuar vivendo em torno do medo.

Culpa depois de mudanças

Perdas e mudanças muitas vezes trazem culpa. Culpa por não ter feito diferente. Culpa por seguir em frente. Culpa por sentir alívio. Culpa por deixar alguém. Culpa por mudar de cidade. Culpa por não estar sofrendo do jeito que imaginava. Culpa por estar sofrendo “demais”.

A culpa precisa ser escutada, mas também examinada. Há algo real a reparar? Se sim, pense em uma ação possível: pedir desculpas, corrigir algo, assumir uma responsabilidade, conversar. Mas, se a culpa está ligada ao impossível, como prever tudo, impedir toda perda ou controlar emoções, talvez seja uma culpa ansiosa.

Nem tudo que dói é culpa. Às vezes, é luto. Às vezes, é saudade. Às vezes, é medo. Às vezes, é a tristeza de aceitar que a vida não poderia ser perfeita. A mente chama tudo de culpa porque culpa dá a ilusão de controle: “se foi minha culpa, talvez eu pudesse ter impedido”.

Mas nem toda perda poderia ter sido impedida. Nem toda mudança foi erro. Nem toda dor significa que você escolheu mal.

Como criar segurança em uma fase instável

Em fases de mudança, a segurança precisa ser construída em pequenas partes. O primeiro passo é cuidar do básico: sono, alimentação, banho, remédios quando houver prescrição, documentos, dinheiro, compromissos urgentes, contato com pessoas confiáveis. O básico parece simples, mas sustenta o emocional.

Depois, crie uma rotina mínima. Não precisa ser perfeita. Pode ser acordar em horário parecido, caminhar alguns minutos, fazer uma refeição decente, separar um momento para resolver pendências e outro para descansar. A rotina mínima dá ao corpo a mensagem de que ainda existe algum chão.

Também ajuda reduzir decisões desnecessárias. Em transição, a mente já está sobrecarregada. Simplifique onde puder: roupas, alimentação, horários, tarefas. Guarde energia para o que realmente precisa de escolha.

Por fim, tenha uma lista de apoio: pessoas, profissionais, serviços, lugares e atividades que ajudam. Em crise, a mente esquece recursos. Uma lista escrita pode lembrar que você não está sem saída.

Quando procurar ajuda imediata?

Procure ajuda imediata se a ansiedade depois de uma perda ou mudança vier com pensamentos de morte, vontade de se machucar, medo de perder o controle, uso intenso de álcool ou drogas, pânico frequente, insônia grave, sensação de que não consegue ficar seguro ou impulso de tomar decisões perigosas.

Também procure apoio se você está sozinho demais, sem conseguir comer, dormir, trabalhar, cuidar de filhos ou realizar tarefas básicas. Algumas fases exigem rede. Não é preciso esperar desmoronar completamente para pedir ajuda.

Um psicólogo 24 horas online pode ajudar em momentos agudos, quando a pessoa precisa organizar a crise, respirar, avaliar risco e pensar no próximo passo. Se houver risco imediato de autoagressão, violência, intoxicação ou perigo físico, acione serviços de emergência da sua região e chame alguém de confiança.

Quando a mudança envolve o casal, como separação, reconciliação, mudança de casa, filhos, traição, crise financeira ou decisão de futuro, a terapia de casal 24 horas online pode ajudar se houver segurança para os dois conversarem. Se há violência ou medo, a prioridade é proteção individual.

Como apoiar alguém que está ansioso depois de uma perda

Se alguém próximo está ansioso depois de uma perda ou mudança, evite frases que apressam a pessoa: “você precisa superar”, “pense positivo”, “isso já passou”, “tem gente pior”, “foi melhor assim”. Mesmo quando a intenção é ajudar, essas frases podem fazer a pessoa se sentir incompreendida.

Prefira presença simples: “estou aqui”, “isso parece muito difícil”, “quer que eu fique com você?”, “qual é o próximo passo prático?”, “você precisa comer alguma coisa?”, “posso te acompanhar em uma ligação?”. Em fases de transição, apoio concreto vale muito.

Também é importante não alimentar catástrofes. Acolha a emoção, mas ajude a pessoa a voltar para o presente. “Eu entendo que sua mente está imaginando muitos cenários. Vamos pensar no que precisa ser feito hoje.”

Se a pessoa falar em morrer, se machucar, sumir ou não aguentar, leve a sério. Fique por perto se for seguro, chame rede de apoio e procure ajuda profissional ou emergência quando necessário.

O papel da terapia na reconstrução

A terapia pode ajudar a pessoa a atravessar perdas e mudanças sem ficar presa ao medo. O cuidado psicológico oferece espaço para nomear a dor, entender reações do corpo, diferenciar preocupação de planejamento, reduzir evitação, trabalhar culpa, reorganizar rotina e construir novos sentidos.

Em fases de transição, a pessoa muitas vezes precisa contar a própria história de novo. Quem eu era antes? O que perdi? O que ainda tenho? O que precisa ser despedido? O que pode nascer agora? Essas perguntas não são respondidas rapidamente, mas podem ser trabalhadas com apoio.

A terapia também ajuda quando a pessoa sente que precisa ser forte o tempo todo. Muitas vezes, a força real não está em não sentir, mas em aprender a sentir sem se destruir. Chorar, duvidar e pedir ajuda não significam fracasso. Significam humanidade.

O objetivo não é apagar a perda nem fingir que a mudança foi fácil. É ajudar a pessoa a construir uma vida possível depois do abalo.

Um passo de cada vez

Depois de perdas e mudanças, a mente quer resolver tudo. Quer saber se vai ficar bem, quando vai parar de doer, qual será o futuro, se a decisão foi certa, se a vida voltará ao normal. Mas, muitas vezes, a resposta só aparece caminhando.

Um passo de cada vez pode parecer pouco, mas é assim que a reconstrução acontece. Hoje, tomar banho. Amanhã, resolver uma pendência. Depois, conversar com alguém. Depois, organizar uma gaveta. Depois, procurar ajuda. Depois, retomar uma atividade. Depois, descansar sem culpa.

A ansiedade despreza passos pequenos porque quer garantias grandes. Mas passos pequenos são concretos. Eles dizem ao corpo: “a vida ainda se move”. Em fases de luto ou transição, movimento suave pode ser mais importante do que grandes decisões.

Você não precisa saber exatamente quem será depois da mudança. Pode começar cuidando de quem você é agora: uma pessoa atravessando um período difícil e merecendo apoio.

A vida não volta igual, mas pode voltar a ter chão

Depois de uma perda importante, talvez a vida não volte a ser exatamente como antes. Essa é uma das partes mais difíceis de aceitar. A ansiedade muitas vezes quer restaurar o mundo antigo. Mas algumas mudanças não podem ser desfeitas. Algumas ausências permanecem. Algumas fases acabam mesmo.

Isso não significa que a vida acabou. Significa que ela precisará encontrar outra forma. No começo, essa frase pode parecer impossível. Com o tempo, pode começar a fazer sentido. O chão novo não aparece de uma vez. Ele é construído por rotina, apoio, cuidado, memória, escolha, descanso, pequenos vínculos e novos significados.

A ansiedade depois de perdas ou mudanças é um sinal de que algo importante foi mexido. Ela não precisa ser tratada como inimiga, mas também não precisa comandar tudo. Escute o medo, mas não entregue a ele todas as decisões. Escute a dor, mas não conclua que ela será eterna.

Mudar dói. Perder dói. Recomeçar assusta. Mas, com cuidado, o corpo aprende que a vida ainda pode ser habitada. Não a vida antiga, talvez. Mas uma vida possível, com mais consciência, mais limites, mais apoio e, aos poucos, mais paz.

Leituras relacionadas

Referências bibliográficas

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