Ver alguém em crise de ansiedade pode assustar. A pessoa pode chorar, tremer, respirar rápido, dizer que vai morrer, que vai desmaiar, que não consegue ficar ali, que está perdendo o controle ou que precisa sair imediatamente. Quem está por perto muitas vezes quer ajudar, mas não sabe como. Algumas pessoas tentam acalmar dizendo “fica tranquilo”, “isso não é nada”, “pare de pensar nisso”. Outras ficam nervosas, fazem muitas perguntas, chamam atenção, dão bronca ou tentam resolver tudo na hora. Mesmo com boa intenção, algumas dessas reações podem piorar a crise.

Ajudar alguém em crise de ansiedade começa com presença. Não é preciso ter uma frase perfeita. O mais importante é transmitir segurança, reduzir estímulos, falar com calma, não ridicularizar e ajudar a pessoa a atravessar os próximos minutos. Uma crise costuma ter um pico. No auge, a pessoa pode não conseguir pensar com clareza. Por isso, explicações longas, conselhos complexos ou discussões sobre “motivo” geralmente não ajudam naquele momento.

Também é importante saber diferenciar uma crise de ansiedade de uma situação de risco físico ou emergência. Ansiedade pode produzir sintomas muito fortes, mas nem todo sintoma deve ser atribuído automaticamente à ansiedade. Se há desmaio, dor forte no peito, falta de ar intensa, intoxicação, confusão grave, risco de autoagressão, violência, tentativa de suicídio ou qualquer perigo imediato, é necessário acionar serviços de emergência da região e pessoas de confiança. Apoio emocional é essencial, mas segurança vem primeiro.

Primeiro: mantenha a sua própria calma

Quando alguém entra em crise, o ambiente pode ficar tenso rapidamente. A pessoa em sofrimento sente medo, e quem está ao redor também pode sentir. Se você fala alto, se desespera, faz movimentos bruscos ou demonstra pânico, a pessoa pode interpretar que realmente há perigo. Por isso, o primeiro cuidado é regular a sua própria postura.

Respire antes de falar. Use uma voz baixa e firme. Aproxime-se sem invadir. Se houver outras pessoas olhando, tente reduzir a exposição. Uma frase simples pode ser: “eu estou aqui com você”. Outra: “vamos passar por isso um minuto de cada vez”. O tom importa tanto quanto as palavras.

Não tente vencer a crise pela força. Ansiedade não obedece a ordem. Dizer “para com isso agora” costuma aumentar vergonha e medo. A pessoa pode sentir que está falhando por não conseguir se acalmar imediatamente. Em vez de exigir calma, ofereça presença: “você não precisa resolver tudo agora; só vamos atravessar este momento”.

Se você também está muito nervoso, tente chamar outra pessoa calma para ajudar. Apoiar alguém em crise não significa carregar tudo sozinho. Em situações de risco, apoio rápido e adequado pode fazer diferença.

Fale pouco e com frases simples

No auge da ansiedade, o cérebro da pessoa pode estar em modo de ameaça. Ela tem dificuldade de processar informações longas. Frases muito elaboradas, explicações técnicas e muitas perguntas podem sobrecarregar. A melhor comunicação costuma ser simples, curta e repetida com calma.

Você pode dizer: “você está em uma crise de ansiedade”; “isso é muito desconfortável, mas pode passar”; “eu vou ficar aqui”; “vamos sentar”; “solte o ar devagar”; “olhe para mim”; “perceba seus pés no chão”; “não precisa responder tudo agora”.

Evite fazer um interrogatório: “por que você está assim?”, “o que aconteceu?”, “você tomou alguma coisa?”, “você brigou com alguém?”, “isso é por causa de quê?”. Algumas perguntas podem ser necessárias para avaliar risco, mas faça poucas e com gentileza. Primeiro, ajude a pessoa a se estabilizar.

Também evite discutir se o medo faz sentido. Durante a crise, dizer “mas não tem motivo” não ajuda. Para a pessoa, o corpo está reagindo como se houvesse motivo. Melhor dizer: “eu sei que parece muito assustador agora”. Validar não é concordar com a catástrofe. É reconhecer que o sofrimento é real.

Ajude a pessoa a se orientar no presente

Crises de ansiedade puxam a mente para cenários de perigo. A pessoa pode sentir que vai morrer, enlouquecer, desmaiar, ser abandonada, ser julgada ou perder o controle. Uma forma de ajudar é trazê-la de volta ao ambiente presente, com calma.

Você pode dizer: “me diga três coisas que você está vendo”. Se isso for difícil, faça junto: “eu vejo uma cadeira, uma parede branca, uma janela”. Depois, convide: “sente seus pés no chão”; “perceba o apoio da cadeira”; “segure este copo”; “olhe para aquele ponto”. Essas instruções ajudam o cérebro a sair um pouco da ameaça imaginada e voltar para o aqui e agora.

Outra possibilidade é orientar a pessoa a nomear o lugar e o momento: “você está em casa”; “são oito horas”; “eu estou aqui com você”; “isso é uma crise”. Pode parecer simples, mas em crise a pessoa pode se sentir desconectada, confusa ou tomada pelo medo.

Não force a pessoa a fazer exercícios se ela não quer. Ofereça como convite: “quer tentar comigo?”. Ajudar não é controlar o outro. É abrir uma possibilidade de apoio.

Respiração: ajude sem transformar em cobrança

A respiração costuma mudar durante a ansiedade. A pessoa pode respirar rápido, prender o ar, puxar ar demais ou sentir que não consegue respirar. Muitas pessoas tentam ajudar dizendo “respira fundo”, mas isso às vezes piora, porque a pessoa tenta encher muito o peito e fica mais tensa.

Uma orientação mais útil é focar em soltar o ar. Você pode dizer: “não precisa puxar muito ar; só tenta soltar devagar comigo”. Respire de forma visível, tranquila, sem exagero. A pessoa pode acompanhar se conseguir.

Uma sequência simples é: inspirar de modo confortável e soltar o ar um pouco mais longo. Não precisa contar se isso deixar a pessoa mais ansiosa. Se contar ajudar, use algo leve: “entra o ar em três, sai em cinco”. Mas não transforme em teste. Se ela não conseguir, diga: “tudo bem, vamos só ficar aqui”.

O objetivo não é fazer a crise desaparecer em segundos. É reduzir um pouco a ativação. Às vezes, a respiração melhora aos poucos. Às vezes, a pessoa precisa primeiro sentar, chorar ou se sentir acompanhada. O cuidado deve ser flexível.

Ofereça um lugar mais seguro e menos exposto

Se a crise acontece em público, a pessoa pode ficar ainda mais ansiosa por medo de ser observada. Quando possível, ajude a ir para um lugar mais calmo: uma sala vazia, um canto menos movimentado, um banco, um espaço com menos barulho. Pergunte antes de tocar ou conduzir: “quer ir para um lugar mais tranquilo?”

Não arraste a pessoa nem exponha sua crise. Evite chamar atenção desnecessária. Se outras pessoas estão olhando, você pode dizer com discrição: “está tudo bem, estamos cuidando”. A vergonha pode intensificar o sofrimento.

Também observe o ambiente físico. A pessoa está em pé e tonta? Convide a sentar. Está em um lugar quente e cheio? Procure ar e espaço. Está dirigindo? Oriente a parar em local seguro. Está perto de escadas, janelas, objetos perigosos ou trânsito? Priorize segurança.

Pequenas mudanças no ambiente podem reduzir a intensidade da crise. Menos estímulo, menos exposição e mais apoio corporal ajudam o sistema nervoso a baixar o alarme.

Não minimize, não envergonhe, não faça piada

Uma pessoa em crise já pode estar se sentindo fraca, ridícula ou culpada. Frases de julgamento pioram. Evite dizer: “isso é frescura”, “você quer chamar atenção”, “de novo isso?”, “tem gente com problema de verdade”, “você está exagerando”, “para de drama”. Mesmo que você não entenda a crise, respeite o sofrimento.

Também evite piadas. Algumas pessoas usam humor para aliviar a tensão, mas, no momento da crise, a pessoa pode sentir que está sendo ridicularizada. O melhor é esperar a crise passar e conhecer o estilo da pessoa antes de brincar.

Validar não significa alimentar o medo. Você não precisa dizer “sim, você vai morrer” ou “sim, é perigoso”. Validação seria: “eu vejo que você está com muito medo”; “isso parece muito forte no seu corpo”; “não vou te julgar”; “vamos cuidar do que está acontecendo agora”.

A vergonha é um dos fatores que fazem pessoas esconderem crises e demorarem a pedir ajuda. Sua reação pode ensinar a pessoa que ela pode buscar apoio sem ser humilhada.

Pergunte antes de tocar

Algumas pessoas se acalmam com toque: segurar a mão, receber um abraço, sentir alguém por perto. Outras ficam mais ansiosas quando são tocadas, especialmente se estão em pânico, trauma, sensação de sufocamento ou medo de perder o controle. Por isso, pergunte.

Você pode dizer: “quer que eu segure sua mão?”; “você prefere um abraço ou espaço?”; “posso sentar aqui do seu lado?”. Essa pergunta simples devolve alguma sensação de controle à pessoa. Em crise, sentir que ainda pode escolher é muito importante.

Se a pessoa disser não, respeite. Fique perto, mas sem invadir. Às vezes, a melhor ajuda é presença silenciosa. Se ela disser sim, mantenha o toque calmo e estável. Não balance a pessoa, não aperte demais, não segure de forma que ela se sinta presa.

Em casos de trauma, toque inesperado pode ser gatilho. Mesmo pessoas íntimas podem precisar de consentimento no meio de uma crise. Cuidado verdadeiro respeita limites.

Ajude a separar crise de decisão

Muitas crises vêm acompanhadas de impulsos. A pessoa pode querer terminar um relacionamento, pedir demissão, mandar mensagens desesperadas, sair correndo, beber, se machucar, confrontar alguém ou tomar uma decisão definitiva. No auge da ansiedade, tudo parece urgente.

Uma forma de ajudar é separar o momento da decisão. Diga: “não precisamos decidir isso agora”; “primeiro vamos atravessar a crise”; “você pode pensar nisso depois que seu corpo baixar”; “vamos esperar alguns minutos antes de mandar mensagem”.

Isso não significa invalidar o problema. Talvez a pessoa realmente precise tomar uma decisão depois. Talvez precise conversar, terminar, mudar algo, pedir ajuda, colocar limite. Mas a crise não costuma ser o melhor lugar para decisões complexas.

Ajude a pessoa a escolher um próximo passo pequeno e seguro. Em vez de “resolver a vida”, o passo pode ser beber água, sentar, ligar para alguém de confiança, guardar o celular por alguns minutos, sair de perto de uma discussão ou procurar atendimento.

Quando a crise acontece no relacionamento

Em casais, crises de ansiedade podem aparecer depois de brigas, ciúmes, medo de abandono, descoberta de mentira, ameaça de término, silêncio ou sensação de rejeição. A pessoa ansiosa pode pedir garantias, mandar muitas mensagens, chorar, acusar, implorar ou entrar em pânico. O parceiro pode se sentir pressionado, injustiçado ou sem saber o que fazer.

Nessas horas, é importante não transformar a crise em tribunal. Se o casal tenta discutir toda a relação enquanto uma pessoa está em pânico, a conversa pode virar ataque e defesa. Primeiro, estabilize. Depois, conversem.

Uma frase possível é: “eu vejo que você está em crise. Eu não vou resolver tudo agora, mas também não vou te abandonar neste momento. Vamos nos acalmar e depois falamos”. Essa frase combina presença e limite.

Se as crises se repetem dentro da relação, uma terapia de casal 24 horas online pode ajudar quando há segurança para os dois conversarem. Se há medo, ameaça, controle ou violência, a prioridade é proteção individual. Em crise individual intensa, um psicólogo 24 horas online pode ajudar a organizar o momento.

Ajude sem virar refém da ansiedade

Apoiar alguém não significa responder infinitamente às mesmas perguntas. Algumas pessoas em crise buscam garantias: “vou morrer?”, “você tem certeza que não vai me deixar?”, “você acha que estou ficando louco?”, “tem certeza que está tudo bem?”. Responder uma vez pode ajudar. Responder vinte vezes pode alimentar o ciclo.

A ansiedade pede certeza absoluta, mas a certeza nunca dura. A pessoa se acalma por um minuto e pergunta de novo. Quem apoia pode ficar exausto. A pessoa ansiosa também fica mais dependente de garantias externas.

Uma forma mais saudável é acolher e redirecionar: “eu já respondi com sinceridade. Acho que sua ansiedade está pedindo garantia de novo. Vamos voltar para o plano: respirar, sentar, observar o ambiente e esperar a onda baixar”.

Isso precisa ser dito com carinho, não com irritação. O objetivo não é abandonar a pessoa, mas ajudá-la a construir confiança. Apoio bom não é fazer tudo que a ansiedade pede. É ajudar a pessoa a atravessar sem fortalecer a prisão.

Observe sinais de risco

Nem toda crise de ansiedade é emergência médica ou risco de vida, mas algumas situações exigem ação imediata. Leve muito a sério se a pessoa diz que quer morrer, que vai se machucar, que não aguenta mais viver, que tem um plano, que tomou remédios em excesso, que usou drogas ou álcool de forma perigosa, que pode machucar alguém ou que não consegue se manter segura.

Também busque ajuda urgente se há desmaio, dor forte no peito, falta de ar grave, confusão intensa, convulsão, ferimento, intoxicação, reação alérgica, violência, ameaça com arma ou risco físico imediato. Nesses casos, acione serviços de emergência da sua região.

Se houver risco de autoagressão, não deixe a pessoa sozinha. Chame alguém de confiança. Afaste, se for seguro, meios que possam ser usados para ferir. Fique perto até a ajuda chegar ou até a pessoa estar acompanhada por alguém responsável. Não prometa segredo quando a vida está em risco.

É melhor levar a sério e depois perceber que o risco diminuiu do que minimizar uma situação grave. Cuidado responsável protege primeiro e explica depois.

Ajude a pessoa a criar um plano depois da crise

Durante a crise, o foco é atravessar. Depois que ela baixa, pode ser útil conversar com calma. Não faça isso como cobrança. Faça como cuidado: “o que ajudou?”, “o que piorou?”, “o que você gostaria que eu fizesse se acontecer de novo?”, “quem podemos chamar?”, “você acha que precisa procurar atendimento?”.

Um plano simples pode incluir sinais de alerta, ações de estabilização, pessoas de apoio e serviços de ajuda. Sinais de alerta: respiração curta, tremor, pensamento “não vou aguentar”, vontade de fugir, choro, checagem, medo intenso. Ações: sentar, soltar o ar devagar, olhar ao redor, beber água, sair de estímulos, evitar mensagens impulsivas, chamar alguém.

Também é importante combinar o que não ajuda. Algumas pessoas não gostam de abraço. Outras não querem muitas perguntas. Outras precisam que alguém fale pouco. Outras precisam ser lembradas de não pesquisar sintomas. O plano deve respeitar a pessoa.

Esse tipo de conversa é melhor fora da crise. No auge, a pessoa talvez não consiga explicar. Depois, com mais calma, ela pode participar do próprio cuidado.

Quando incentivar ajuda profissional

Uma crise isolada pode acontecer em uma fase de estresse. Mas, se as crises se repetem, se a pessoa evita lugares, não dorme, falta ao trabalho ou estudo, vive com medo do próximo ataque, usa álcool ou remédios para suportar, se isola ou fala em morrer, é hora de incentivar ajuda profissional.

Fale com cuidado. Em vez de “você precisa se tratar”, prefira: “eu vejo que você está sofrendo muito e não precisa passar por isso sozinho”; “talvez um profissional possa te ajudar a entender essas crises”; “posso te ajudar a procurar atendimento?”.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a entender gatilhos, pensamentos, sintomas físicos, evitação, comportamentos de segurança e formas de atravessar crises. Em alguns casos, avaliação médica ou psiquiátrica também pode ser necessária, especialmente quando há sintomas intensos, risco, insônia grave, depressão, uso de substâncias ou prejuízo importante.

Ajuda profissional não significa que amigos e família deixam de importar. Pelo contrário: rede de apoio e tratamento podem caminhar juntos. Cada um tem seu papel.

O que fazer se a pessoa recusar ajuda?

Nem sempre a pessoa aceita ajuda na hora. Ela pode sentir vergonha, medo, irritação ou achar que ninguém entende. Se não houver risco imediato, respeite o tempo dela, mas mantenha a porta aberta. Diga: “tudo bem, não vou te forçar agora. Mas estou preocupado e quero te apoiar”.

Se a pessoa recusa psicólogo, talvez aceite conversar com um médico, um familiar, um amigo, um líder religioso de confiança ou outra pessoa segura. O caminho pode começar por onde ela consegue entrar. O importante é reduzir isolamento.

Se houver risco de vida, a recusa não deve impedir ação protetiva. Em risco de suicídio, intoxicação, violência ou incapacidade de se manter segura, chame emergência e rede de apoio. Nesses casos, segurança vem antes da preferência momentânea da pessoa.

Também cuide de seus limites. Você pode oferecer apoio, mas não consegue controlar todas as escolhas do outro. Apoiar alguém em sofrimento pode ser pesado. Procure orientação para você também, se necessário.

Como agir em uma crise por mensagem ou telefone

Às vezes, a pessoa entra em crise longe de você e manda mensagens desesperadas. Nessa situação, tente ser claro e presente. Pergunte onde ela está e se está segura. Pergunte se está sozinha. Pergunte se há risco de se machucar. Essas perguntas são importantes.

Use frases curtas: “fica comigo na ligação”; “senta em um lugar seguro”; “coloca os pés no chão”; “me diz três coisas que você vê”; “solta o ar devagar”; “não dirige agora”; “vamos chamar alguém perto de você”.

Se houver risco, não tente resolver apenas por mensagem. Peça endereço, chame alguém próximo, acione emergência. Se você não sabe onde a pessoa está, tente mantê-la falando enquanto busca ajuda de alguém que saiba.

Por mensagem, evite textos longos. Em crise, a pessoa pode não conseguir ler. Prefira uma instrução por vez. “Sente.” Depois: “respira comigo.” Depois: “me responde: você está em risco agora?”.

Como ajudar uma criança ou adolescente em crise

Crianças e adolescentes podem ter crises de ansiedade, mas nem sempre conseguem explicar. Podem chorar, ficar irritados, dizer que estão passando mal, pedir para sair, tremer, ter dor de barriga, ficar agressivos ou se calar. Adultos podem interpretar como birra, quando na verdade há medo intenso.

Com crianças, use linguagem simples: “seu corpo está assustado”; “vamos ajudar seu corpo a acalmar”; “eu estou aqui”; “você está seguro agora”. Não exija explicações no pico. Ajude com presença, respiração leve, ambiente calmo e objetos de conforto.

Com adolescentes, evite humilhar. Não diga “isso é drama” ou “na sua idade eu não tinha isso”. Pergunte com respeito: “você quer que eu fique perto ou prefere espaço com a porta aberta?”; “quer falar ou só respirar um pouco?”.

Se crises se repetem, se há recusa escolar, automutilação, pensamentos de morte, isolamento forte, uso de substâncias ou queda importante de funcionamento, procure ajuda profissional. Crianças e adolescentes não devem carregar sofrimento intenso sozinhos.

Como ajudar sem se esquecer de você

Apoiar alguém com crises frequentes pode ser emocionalmente cansativo. Você pode sentir medo, culpa, irritação, impotência ou exaustão. Isso não faz de você uma pessoa ruim. Significa que você também é humano.

É importante ter limites. Você pode dizer: “eu quero te ajudar, mas também precisamos envolver um profissional”; “não consigo ficar disponível vinte e quatro horas sozinho”; “vamos montar uma rede”; “quando você estiver em risco, vamos chamar emergência”.

Não aceite ser a única fonte de regulação da pessoa. Isso pode criar dependência e sobrecarregar o vínculo. O ideal é que a pessoa tenha várias fontes de apoio: terapia, familiares, amigos, serviços, plano de crise e recursos próprios.

Cuidar de si não é abandono. É o que permite apoiar de forma mais estável. Uma pessoa exausta pode começar a reagir com impaciência, e isso prejudica todos. Apoio sustentável precisa incluir quem apoia.

O que dizer depois que a crise passa

Depois da crise, a pessoa pode sentir vergonha. Talvez peça desculpas muitas vezes, diga que deu trabalho ou tente fingir que nada aconteceu. Esse momento precisa de delicadeza. Você pode dizer: “você não precisa ter vergonha”; “foi uma crise, e nós atravessamos”; “vamos pensar com calma no que pode ajudar da próxima vez”.

Evite usar a crise contra a pessoa em discussões futuras. Frases como “você é sempre descontrolado” ou “não dá para lidar com você” aumentam medo e isolamento. Se houve comportamentos que machucaram, eles podem ser conversados depois, mas sem transformar a crise inteira em culpa.

Também não trate como se nada importasse. Se a crise foi intensa, repetida ou perigosa, converse sobre ajuda. “Eu te amo e fiquei preocupado. Acho importante você não ficar sozinho com isso.” Essa fala combina afeto e responsabilidade.

O pós-crise é uma oportunidade de cuidado, não de julgamento. A pessoa pode aprender sobre seus sinais, e a rede pode aprender como apoiar melhor.

Um roteiro simples para lembrar na hora

Quando a crise acontece, é comum esquecer tudo. Por isso, um roteiro simples pode ajudar. Primeiro: mantenha voz calma. Segundo: leve a pessoa para um lugar seguro, se possível. Terceiro: diga frases curtas de presença. Quarto: ajude a orientar no presente. Quinto: convide a soltar o ar devagar. Sexto: reduza decisões impulsivas. Sétimo: avalie risco. Oitavo: chame ajuda se necessário.

Você pode guardar algumas frases prontas: “eu estou aqui”; “isso é uma crise, não uma sentença”; “vamos passar pelo próximo minuto”; “não precisamos decidir nada agora”; “se houver risco, vamos pedir ajuda”; “você não está sozinho”.

Também tenha em mente o que evitar: bronca, piada, julgamento, exposição, perguntas demais, toque sem consentimento, garantias infinitas e discussões complexas no pico. Menos pode ser mais.

Uma crise de ansiedade não precisa ser enfrentada com perfeição. Mesmo uma ajuda simples, respeitosa e calma pode fazer muita diferença.

A presença segura ajuda o corpo a baixar o alarme

Em uma crise de ansiedade, a pessoa pode sentir que está sozinha dentro do próprio medo. Uma presença segura funciona como ponto de apoio. Não porque resolve tudo, mas porque comunica ao corpo: há alguém aqui, este momento pode ser atravessado, não preciso lutar sozinho.

Às vezes, ajudar é sentar ao lado em silêncio. Às vezes, é respirar junto. Às vezes, é chamar emergência. Às vezes, é impedir uma decisão impulsiva. Às vezes, é lembrar a pessoa de procurar tratamento. Em todos os casos, ajudar exige respeito e atenção ao risco.

Ansiedade intensa pode fazer a pessoa acreditar que a crise vai durar para sempre. Sua calma ajuda a lembrar que uma onda emocional tem movimento. Ela sobe, atinge um pico e pode descer. O objetivo é atravessar com segurança até que a pessoa recupere mais clareza.

Apoiar alguém em crise não é ter todas as respostas. É oferecer uma ponte entre o medo e o próximo passo seguro. Muitas vezes, essa ponte começa com uma frase simples: “eu estou aqui com você”.

Leituras relacionadas

Referências bibliográficas

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