Quando uma crise emocional começa, a respiração costuma mudar antes mesmo que a pessoa perceba. O ar fica curto, rápido, preso ou irregular. O peito aperta. A garganta parece estreita. A pessoa tenta puxar mais ar, mas a sensação de sufocamento pode aumentar. Em poucos segundos, a mente interpreta: “tem algo errado”, “não vou conseguir respirar”, “vou desmaiar”, “vou perder o controle”. O corpo entra em alerta, e a crise cresce.

Respirar melhor pode ajudar, mas é importante entender o papel da respiração com cuidado. Ela não é uma fórmula mágica para apagar ansiedade, tristeza, raiva ou medo. Também não deve virar uma obrigação rígida, como se a pessoa estivesse em perigo caso não respirasse “do jeito certo”. A respiração é uma ponte. Ela ajuda o corpo a voltar ao presente, reduz um pouco a aceleração e cria espaço para a pessoa escolher o próximo passo com mais clareza.

Em crises de ansiedade, pânico, brigas, perdas, insônia, medo intenso ou pensamentos repetitivos, o corpo muitas vezes precisa de sinais simples de segurança. A respiração pode ser um desses sinais. Mas o objetivo não é controlar tudo. É se acompanhar. É dizer ao corpo: “eu percebi o alarme; vamos atravessar este momento”.

Por que a respiração muda quando estamos em crise?

A respiração está ligada ao sistema de alerta do corpo. Quando o cérebro percebe ameaça, o organismo se prepara para reagir. O coração acelera, os músculos ficam tensos, a atenção se estreita e a respiração muda para sustentar uma resposta de luta, fuga ou defesa. Isso é útil quando existe perigo físico real. O problema é que o corpo pode ativar esse mesmo sistema diante de ameaças emocionais: uma mensagem difícil, uma lembrança dolorosa, uma briga, uma cobrança, uma perda ou um pensamento assustador.

Durante a crise, a pessoa pode começar a respirar de forma mais alta, usando muito o peito e os ombros. Pode prender o ar sem perceber. Pode suspirar várias vezes. Pode tentar puxar grandes quantidades de ar, como se precisasse compensar uma falta. Essas mudanças podem gerar tontura, formigamento, aperto no peito e sensação de irrealidade, o que aumenta ainda mais o medo.

O ciclo fica assim: a emoção ativa o corpo, o corpo muda a respiração, a mudança assusta, o susto aumenta a emoção, a emoção piora a respiração. Quando a pessoa entende esse ciclo, a respiração deixa de ser uma prova de perigo e passa a ser um ponto de cuidado.

Isso não significa ignorar sintomas físicos. Falta de ar intensa, dor forte no peito, desmaio, crise alérgica, intoxicação ou sintomas novos e graves precisam de avaliação médica. Mas, quando o padrão é de ansiedade ou pânico já reconhecido, aprender a respirar com menos luta pode ajudar muito.

Respirar não é vencer a crise pela força

Muita gente tenta usar a respiração como um botão de desligar. A crise começa e a pessoa pensa: “preciso respirar certo agora, senão vou piorar”. Esse pensamento transforma uma técnica de apoio em mais uma cobrança. Se a ansiedade não desaparece em poucos segundos, a pessoa conclui: “não funcionou”, “não consigo nem respirar”, “estou perdendo o controle”.

Esse é um erro comum. A respiração não precisa fazer a crise sumir imediatamente para ser útil. Às vezes, ela apenas reduz a intensidade de dez para oito. Às vezes, ajuda a pessoa a não agir no impulso. Às vezes, oferece um ponto de atenção enquanto a onda emocional passa. Isso já importa.

Também é importante não tratar a respiração como condição de segurança. A pessoa não precisa pensar: “se eu não respirar perfeitamente, algo terrível vai acontecer”. Essa ideia pode aumentar o medo das sensações corporais. O corpo sabe respirar. A técnica serve para apoiar, não para provar que você está salvo.

Uma frase mais saudável seria: “vou usar a respiração para me acompanhar, não para me obrigar a ficar bem agora”. Essa mudança tira peso da técnica e torna o cuidado mais gentil.

O primeiro passo é soltar o ar

Quando alguém está em crise, é comum ouvir: “respira fundo”. Mas, para algumas pessoas, tentar puxar muito ar piora a sensação. A pessoa enche o peito, tensiona ombros, prende o ar e fica mais assustada. Por isso, muitas vezes o primeiro passo não é inspirar mais. É soltar.

Soltar o ar devagar comunica ao corpo que não há necessidade de correr imediatamente. Você pode inspirar de forma confortável, sem exagero, e depois expirar um pouco mais longo. Não precisa contar se isso aumentar a ansiedade. Se contar ajudar, uma possibilidade simples é inspirar em três tempos e soltar em cinco. Mas o número não é o mais importante. O mais importante é a atitude: menos força, mais permissão.

Imagine que você está desinflando aos poucos. Os ombros podem descer. A mandíbula pode soltar. As mãos podem abrir. Os pés podem tocar o chão. A respiração começa a sair do modo de urgência e volta a encontrar ritmo.

Se no começo parecer difícil, tudo bem. Crise emocional deixa o corpo desorganizado. Você não precisa fazer perfeito. Apenas volte, quantas vezes precisar, para uma expiração um pouco mais lenta.

Respiração diafragmática em linguagem simples

A respiração diafragmática é uma forma de respirar usando mais o diafragma, um músculo que fica abaixo das costelas e participa da entrada de ar nos pulmões. Em linguagem simples, é a respiração em que a barriga se move mais do que o peito. Não é preciso fazer força para “estufar” a barriga; o movimento deve acontecer de forma confortável.

Para praticar, sente-se em uma posição estável. Coloque uma mão no peito e outra no abdômen. Inspire devagar pelo nariz ou pela boca, do jeito que for possível, percebendo se a mão da barriga se move um pouco. Depois solte o ar com calma, sentindo a barriga voltar. A mão do peito pode se mover menos. O ritmo pode ser suave, sem tentar encher completamente os pulmões.

No começo, algumas pessoas estranham. Outras acham que estão fazendo errado. Outras ficam mais ansiosas por prestar atenção à respiração. Isso não significa fracasso. Significa apenas que o corpo e a mente estão aprendendo uma habilidade nova.

O ideal é praticar em momentos calmos, não apenas no auge da crise. Assim, quando a crise vier, o corpo já conhece o caminho. Uma pessoa que tenta aprender a nadar no meio da tempestade sofre mais. Praticar antes cria memória corporal.

Quando prestar atenção à respiração aumenta a ansiedade

Algumas pessoas ficam mais ansiosas quando prestam atenção à respiração. Isso acontece especialmente com quem tem medo de falta de ar, pânico, sensação de sufocamento ou hipervigilância corporal. Ao olhar para a respiração, a pessoa começa a controlar demais: “estou respirando certo?”, “e se eu parar?”, “e se eu não conseguir?”.

Nesses casos, a prática precisa ser ainda mais gentil. Em vez de focar diretamente no ar por muito tempo, a pessoa pode começar pelos pés no chão, pelo contato com a cadeira, pelos sons do ambiente ou por uma expiração suave. Não é obrigatório observar cada detalhe da respiração.

Também pode ajudar lembrar: respirar é uma função automática. Você não precisa controlar todos os movimentos para continuar respirando. O corpo faz isso mesmo quando você dorme, se distrai ou esquece. A técnica não existe porque seu corpo não sabe respirar. Ela existe para ajudar o sistema de alerta a diminuir o ritmo.

Se a respiração vira obsessão, vale procurar ajuda profissional. A terapia pode ajudar a reduzir o medo das sensações respiratórias e a usar a respiração como apoio, não como ritual de controle.

Respiração e pânico: cuidado com a armadilha do controle

No ataque de pânico, a respiração pode ser um recurso, mas também pode virar armadilha. A pessoa sente medo, tenta respirar perfeitamente, percebe que a crise continua e entra em pânico por “não conseguir controlar”. Assim, o exercício se transforma em prova de perigo.

Uma forma mais útil de pensar é: “posso respirar com calma mesmo sentindo pânico”. A respiração não precisa eliminar a crise. Ela ajuda a pessoa a permanecer presente enquanto a onda sobe e desce. O pânico pode estar ali, e ainda assim você pode sentar, soltar o ar, observar o ambiente e esperar alguns minutos antes de agir.

Em tratamentos para pânico, muitas vezes a pessoa aprende que sensações como falta de ar, tontura, coração acelerado e irrealidade são desconfortáveis, mas não significam automaticamente catástrofe. A respiração pode apoiar esse aprendizado, desde que não vire fuga das sensações.

Se a pessoa acredita que só ficará segura se respirar perfeitamente, talvez seja importante trabalhar essa crença. O objetivo final não é depender da técnica, mas confiar que pode atravessar sensações difíceis com ou sem técnica.

Respirar com o corpo inteiro

Em uma crise emocional, a respiração pode ser usada junto com a percepção do corpo. Em vez de ficar apenas pensando, a pessoa volta para sensações concretas: pés no chão, pernas apoiadas, costas na cadeira, ar entrando e saindo, mãos tocando uma superfície, temperatura da pele.

Essa prática ajuda porque a crise costuma puxar a mente para o futuro ou para imagens assustadoras. O corpo, quando observado com cuidado, traz a pessoa de volta ao presente. “Estou aqui. Estou sentado. Estou respirando. Esta é uma onda emocional.”

Uma forma simples é escolher uma região onde a emoção aparece. Talvez peito, garganta, barriga ou ombros. Em vez de lutar contra a sensação, tente respirar “com” ela. Não é preciso gostar dela. Apenas perceba: onde está mais forte? Tem forma? Tem pressão? Muda um pouco quando observo? Aumenta e diminui?

Essa atitude é diferente de tentar expulsar. É uma forma de acolher o que já está presente. Às vezes, a emoção diminui. Às vezes, não. Mesmo assim, a pessoa aprende que pode estar com o corpo sem fugir dele.

Respiração em crise de choro

Quando a pessoa chora muito, a respiração pode ficar cortada. Vêm soluços, aperto na garganta, nariz trancado, peito pesado. Tentar parar de chorar à força pode piorar a sensação. O choro é uma descarga emocional, e em muitos casos precisa de espaço.

Em vez de dizer a si mesmo “não posso chorar”, tente apoiar o corpo durante o choro. Sente-se. Incline levemente o corpo para frente se isso for confortável. Solte o ar pela boca entre os soluços. Beba um pouco de água. Coloque uma mão no peito ou na barriga, se isso ajudar. Diga: “eu estou chorando, e posso respirar aos poucos”.

Se você está ajudando alguém chorando muito, não apresse. Frases como “para de chorar” costumam aumentar vergonha. Melhor dizer: “pode chorar, eu estou aqui”; “vamos respirar devagar entre uma onda e outra”; “não precisamos resolver tudo agora”.

Depois do choro, a pessoa pode ficar cansada. Isso é normal. O corpo gastou energia. O cuidado pode ser simples: água, silêncio, banho, alimento leve, descanso e, se necessário, procurar apoio profissional.

Respiração em momentos de raiva

A raiva também muda a respiração. O ar fica forte, curto, quente. A voz sobe. O corpo se prepara para atacar, defender ou interromper uma injustiça. Em momentos assim, respirar pode ser uma forma de criar espaço entre impulso e ação.

Quando a raiva sobe, talvez não seja possível fazer uma prática longa. O que ajuda é uma pausa curta e concreta. Fechar a boca por alguns segundos. Soltar o ar devagar. Afastar-se da conversa se houver risco de gritar, xingar ou ameaçar. Dizer: “eu preciso de alguns minutos para não falar de um jeito ruim”.

Respirar não significa engolir tudo. Significa não entregar a direção ao impulso. Depois que o corpo baixa um pouco, a conversa pode voltar com mais clareza. A raiva pode carregar uma mensagem importante, mas se sair em agressão talvez destrua aquilo que queria proteger.

Em relações familiares e amorosas, aprender a pausar é essencial. Quando a raiva vira medo, ameaça, humilhação ou violência, é necessário buscar ajuda. Se houver risco físico, a prioridade é segurança.

Respiração antes de dormir

À noite, a respiração pode ajudar o corpo a sair do modo de alerta. Muitas pessoas deitam e a mente começa a revisar problemas. O corpo fica tenso, a respiração curta, o sono distante. Uma prática simples pode funcionar como ritual de desaceleração.

Deite ou sente-se de forma confortável. Solte o ar lentamente algumas vezes. Perceba o peso do corpo. Não tente dormir à força. Apenas crie condições para descansar. Se pensamentos vierem, diga: “isso pode esperar até amanhã” ou “agora estou voltando para a respiração”.

Se a prática não trouxer sono imediatamente, não conclua que falhou. O objetivo pode ser apenas reduzir a luta. Sono não vem por ordem. Ele costuma aparecer quando o corpo recebe sinais de segurança e quando a mente para de transformar a noite em teste.

Se a insônia é frequente, intensa ou acompanhada de depressão, pânico, pensamentos de morte ou uso de substâncias para dormir, procure ajuda. Respiração pode apoiar, mas insônia persistente merece cuidado mais amplo.

Respiração em brigas de casal

Em uma briga de casal, a respiração dos dois pode mudar. Um fala mais rápido. O outro se fecha. Um interrompe. O outro levanta o tom. O corpo de ambos entra em defesa. Nesse estado, a conversa deixa de ser busca de entendimento e vira luta por proteção.

Uma pausa respiratória pode impedir que a discussão escale. Isso não significa abandonar o assunto. Significa reconhecer que o corpo está ativado demais para conversar bem. Uma frase útil é: “eu quero continuar essa conversa, mas preciso de dez minutos para me acalmar”.

Durante a pausa, não use o tempo para montar novos ataques. Use para baixar o corpo: solte o ar, caminhe um pouco, beba água, relaxe a mandíbula, observe o ambiente. Depois, volte no horário combinado. Pausa sem retorno pode virar abandono; pausa com retorno vira cuidado.

Quando as brigas chegam sempre a esse ponto, uma terapia de casal 24 horas online pode ajudar o casal a reconhecer o ciclo antes da explosão. Se a crise é individual, com pânico, desespero ou medo de se machucar, um psicólogo 24 horas online pode ajudar a atravessar o momento com mais segurança.

Quando a respiração vira ritual

Uma prática saudável pode virar ritual quando a pessoa passa a acreditar que precisa dela para estar segura. Por exemplo: “se eu não fizer dez respirações, vou ter pânico”; “se eu não respirar perfeitamente, vou desmaiar”; “se minha respiração sair do ritmo, vou perder o controle”. Nesse ponto, a técnica deixa de libertar e começa a prender.

O sinal de alerta é a rigidez. A pessoa não usa a respiração como apoio, mas como garantia. Se a técnica não funciona do jeito esperado, entra em desespero. Se esquece de praticar, sente culpa. Se está em público e não consegue fazer, acredita que está em perigo.

O caminho é flexibilizar. Respirar pode ajudar, mas você também pode lidar com ansiedade sem fazer tudo perfeito. Pode sentir falta de ar ansiosa e atravessar. Pode sentir coração acelerado e permanecer. Pode ter pensamentos assustadores e não obedecer.

A respiração deve aumentar liberdade, não dependência. Quando vira regra rígida, vale trabalhar isso em terapia, principalmente em casos de pânico, TOC, ansiedade de saúde ou medo intenso de sintomas físicos.

Uma prática de um minuto para momentos difíceis

Quando a crise começa, práticas longas podem parecer impossíveis. Por isso, uma prática de um minuto pode ser mais realista. Primeiro, pare onde for seguro. Segundo, perceba seus pés no chão. Terceiro, solte o ar devagar. Quarto, nomeie: “estou em uma onda de ansiedade, raiva, tristeza ou medo”. Quinto, pergunte: “qual é o próximo passo seguro?”.

Esse minuto não resolve tudo. Ele cria intervalo. E, em crise, intervalo é precioso. Entre sentir e agir, existe um pequeno espaço onde a pessoa pode escolher não mandar a mensagem, não gritar, não fugir, não beber, não dirigir em desespero, não se machucar, não decidir a vida inteira.

Se um minuto for muito, faça dez segundos. Soltar uma expiração já é um começo. Apoiar os pés já é um começo. Olhar ao redor já é um começo. Crises emocionais pedem passos simples, não performances.

Com prática, esse minuto pode se tornar familiar. O corpo aprende que há uma rota de volta. Não uma rota perfeita, mas uma rota possível.

Respiração e aceitação das sensações

Uma parte importante do cuidado emocional é aprender a aceitar sensações sem se render a elas. Aceitar não significa gostar, aprovar ou desistir. Significa reconhecer: “isso está aqui agora”. Quando a pessoa para de gastar toda energia lutando contra a sensação, pode usar essa energia para escolher melhor o que fazer.

Na prática, isso pode ser feito assim: perceba a sensação mais forte no corpo. Talvez seja pressão no peito, nó na garganta, peso na barriga. Inspire e reconheça. Expire e permita um pouco de espaço. Diga: “isso é desconfortável, mas posso observar por alguns segundos”.

Se a sensação aumentar, tente não concluir imediatamente que é perigosa. Sensações emocionais mudam. Elas sobem, descem, se deslocam, apertam, soltam. Observar essa mudança ensina ao cérebro que emoção é onda, não sentença.

Esse tipo de prática deve ser feito com cuidado em pessoas com trauma, pânico intenso ou medo forte do corpo. Às vezes, é melhor começar com apoio profissional. O objetivo é ampliar tolerância, não forçar sofrimento.

Respiração, postura e tensão muscular

A respiração não acontece isolada. Ela conversa com a postura, a tensão muscular e o estado emocional. Quando a pessoa está ansiosa, pode encolher ombros, apertar mandíbula, contrair barriga, prender o peito e respirar curto. O corpo inteiro participa do alarme.

Por isso, às vezes ajuda ajustar o corpo antes de tentar respirar. Desencoste a língua do céu da boca. Solte a mandíbula. Afaste os ombros das orelhas. Apoie os pés. Descruze braços se isso for confortável. Permita que o abdômen se mova um pouco. Depois, solte o ar.

Relaxamento muscular progressivo também pode ser útil para algumas pessoas. Ele envolve tensionar e soltar grupos musculares, percebendo a diferença entre contração e relaxamento. Isso ajuda especialmente quem carrega tensão sem notar.

O corpo aprende por repetição. Pequenas pausas ao longo do dia podem ser mais úteis do que esperar a crise máxima. Respirar antes de explodir é mais fácil do que respirar no meio do incêndio emocional.

Como ajudar alguém a respirar durante uma crise

Se você está ajudando alguém, não mande a pessoa respirar de forma brusca. Fale baixo. Diga: “vamos soltar o ar juntos”. Respire em um ritmo calmo, sem exagero. A pessoa pode acompanhar visualmente. Se ela não conseguir, não critique.

Evite dizer: “você está respirando errado”. Essa frase pode aumentar pânico. Prefira: “não precisa fazer perfeito”; “só tenta soltar um pouco o ar”; “eu estou aqui”. Se a pessoa estiver muito assustada com a respiração, talvez seja melhor começar com aterramento: pés no chão, olhar ao redor, segurar um objeto, perceber a cadeira.

Pergunte se ela quer ajuda. Algumas pessoas preferem silêncio. Outras querem instrução. Outras querem companhia sem toque. Em crise, dar escolha ajuda a pessoa a recuperar um pouco de controle.

Se houver falta de ar grave, dor intensa, desmaio, intoxicação, reação alérgica ou dúvida médica, procure emergência. Ajudar alguém a respirar não substitui avaliação quando há risco físico.

Praticar em dias bons também importa

É comum lembrar da respiração apenas quando tudo está ruim. Mas praticar em dias bons ou neutros ajuda mais. O corpo aprende melhor quando não está em pânico. Depois, em dias difíceis, a técnica fica mais acessível.

Você pode praticar dois ou três minutos por dia. Ao acordar, antes de dormir, depois do almoço, antes de uma reunião, no banho, no ônibus, sentado na varanda. Não precisa criar um ritual perfeito. Precisa criar familiaridade.

Durante a prática, a mente vai se distrair. Isso não é erro. O treino é perceber que se distraiu e voltar. Você pode voltar cem vezes. Cada retorno é a prática. Não há necessidade de se xingar por pensar.

Com o tempo, a respiração deixa de ser uma técnica estranha e vira um ponto de referência. Um lugar interno para onde você pode retornar quando a vida fica rápida demais.

Quando procurar ajuda profissional

Procure ajuda quando as crises emocionais são frequentes, quando a respiração vira medo constante, quando há ataques de pânico, insônia, sintomas físicos assustadores, pensamentos repetitivos, evitação de lugares, uso de álcool ou remédios para se acalmar, ou quando você sente que não consegue lidar sozinho.

Também procure apoio rapidamente se a crise vier com pensamentos de morte, vontade de se machucar, medo de perder o controle, violência, intoxicação ou sensação de risco. Nesses casos, além de apoio psicológico, pode ser necessário acionar serviços de emergência e pessoas de confiança.

A terapia pode ajudar a entender o ciclo entre emoção, respiração, corpo, pensamento e comportamento. Pode ensinar a usar a respiração de forma flexível, sem transformá-la em obrigação. Pode trabalhar medo das sensações, evitação, pânico, trauma, conflitos e formas mais saudáveis de atravessar emoções difíceis.

Respirar ajuda, mas ninguém precisa depender apenas de técnicas para sobreviver a crises. Apoio humano, tratamento, rotina, limites e segurança também fazem parte do cuidado.

Respirar é voltar, não apagar

A respiração não existe para apagar sua humanidade. Ela não deve apagar tristeza, raiva, medo, saudade, insegurança ou dor. Emoções têm mensagens. Elas mostram que algo importa, que algo ameaça, que algo machucou, que algo precisa de limite ou cuidado.

Respirar é voltar. Voltar ao corpo. Voltar ao presente. Voltar à possibilidade de escolher. Voltar antes de agir no impulso. Voltar antes de acreditar em todo pensamento. Voltar antes de se abandonar dentro da crise.

Quando a pessoa aprende a respirar com menos cobrança, o corpo deixa de ser apenas lugar de alarme. Ele vira também lugar de apoio. O ar entra e sai, mesmo quando a mente está barulhenta. A vida continua se movendo, mesmo em ondas difíceis.

Em uma crise emocional, talvez você não consiga se sentir bem rapidamente. Mas pode se acompanhar. Pode soltar o ar. Pode sentir os pés. Pode esperar a onda. Pode pedir ajuda. Pode lembrar: “isso está acontecendo agora, mas não é tudo que eu sou”. Às vezes, esse é o começo da recuperação.

Leituras relacionadas

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