Quando uma crise emocional começa, a mente pode ficar estreita. A pessoa sente medo, desespero, vergonha, raiva, culpa ou uma vontade intensa de fugir de tudo. O corpo entra em alerta, os pensamentos aceleram e decisões simples parecem impossíveis. Nessa hora, tentar pensar em tudo do zero pode ser difícil. Por isso, ter um plano de segurança emocional preparado antes da crise pode fazer muita diferença.

Um plano de segurança emocional é uma lista simples, prática e pessoal do que fazer quando o sofrimento fica forte demais. Ele não é um contrato frio, nem uma fórmula mágica. É um mapa para momentos em que a pessoa perde clareza. Ele ajuda a reconhecer sinais de alerta, reduzir riscos, lembrar recursos, chamar pessoas de confiança, procurar atendimento e atravessar a onda emocional sem agir no impulso.

Esse plano pode ser útil para crises de ansiedade, pânico, pensamentos repetitivos, medo de perder o controle, conflitos familiares, brigas de casal, luto, separações, esgotamento, sintomas físicos assustadores ou momentos em que a pessoa sente que não está segura consigo mesma. Quanto maior o risco, mais importante é que o plano seja feito com apoio profissional e rede de confiança.

O que é um plano de segurança emocional?

Um plano de segurança emocional é um conjunto de passos combinados antecipadamente para usar em momentos difíceis. Ele responde a perguntas simples: como percebo que estou entrando em crise? O que costuma piorar? O que ajuda um pouco? Quem posso chamar? Que lugares são mais seguros? O que preciso afastar de perto? Quando devo procurar ajuda imediata?

O plano precisa ser concreto. Em uma crise, frases genéricas como “tenha calma” ou “pense positivo” geralmente ajudam pouco. Melhor ter orientações claras: “sentar no sofá da sala”, “não dirigir”, “afastar remédios e objetos de risco”, “ligar para tal pessoa”, “não mandar mensagens impulsivas por vinte minutos”, “procurar atendimento se houver vontade de se machucar”.

Ele também precisa ser realista. Não adianta escrever uma lista perfeita que a pessoa nunca vai usar. Um bom plano respeita a vida real: quem atende telefone, quais serviços existem, onde a pessoa mora, se vive sozinha, se tem filhos, se usa medicamentos, se há histórico de crises, se há risco de violência, se há álcool ou drogas envolvidos.

O objetivo não é impedir toda dor. Dor emocional faz parte da vida. O objetivo é reduzir dano, proteger a vida, ganhar tempo e criar apoio até que a onda passe ou até que o atendimento adequado seja acionado.

Por que fazer o plano antes da crise?

Durante uma crise, a mente pode funcionar em modo de emergência. A pessoa pode pensar em extremos: “não aguento mais”, “preciso resolver agora”, “minha vida acabou”, “vou fazer uma besteira”, “ninguém se importa”. Esses pensamentos parecem verdades absolutas no auge da emoção, mas muitas vezes são sinais de um estado de sofrimento intenso.

Quando o plano já está pronto, a pessoa não precisa depender apenas da clareza do momento. Ela pode seguir uma sequência previamente escolhida em um período de maior lucidez. É como deixar uma lanterna guardada antes de faltar luz. Na escuridão, você não precisa inventar iluminação; precisa lembrar onde colocou a lanterna.

Fazer o plano antes também ajuda familiares, parceiros e amigos. Em vez de todos improvisarem no desespero, a rede sabe o que fazer. Uma pessoa sabe ligar. Outra sabe ficar junto. Outra sabe levar ao atendimento. Outra sabe cuidar de crianças ou animais. A crise deixa de ser enfrentada no isolamento.

Além disso, preparar um plano pode reduzir vergonha. A pessoa percebe que crise não é falha moral; é um momento de vulnerabilidade que precisa de cuidado. Assim como alguém com alergia grave pode ter orientações de emergência, alguém com sofrimento emocional intenso também pode ter um plano de proteção.

Primeira parte: reconhecer sinais de alerta

O primeiro passo do plano é identificar sinais de alerta. Eles são pistas de que a crise está chegando ou ficando mais forte. Cada pessoa tem seus sinais. Algumas percebem no corpo: peito apertado, respiração curta, tremor, enjoo, insônia, calor, tensão na mandíbula, dor no estômago. Outras percebem nos pensamentos: “não vou aguentar”, “ninguém liga”, “preciso sumir”, “vou perder o controle”.

Também existem sinais no comportamento. A pessoa começa a se isolar, para de responder mensagens, bebe mais, dirige de forma impulsiva, procura briga, manda muitas mensagens, pesquisa sintomas por horas, checa o parceiro, deixa de comer, fica no celular de madrugada, abandona tarefas básicas ou pensa em se despedir de pessoas.

Reconhecer sinais cedo é importante porque fica mais fácil agir antes do pico. Quando a crise está em intensidade três ou quatro, talvez seja possível tomar banho, comer algo, ligar para alguém, sair de perto de uma discussão ou dormir. Quando chega a nove ou dez, a pessoa pode precisar de ajuda imediata.

Uma parte do plano pode ter a frase: “meus sinais de alerta são…”. Escreva de forma simples. Por exemplo: “fico sem dormir”, “começo a pensar que sou um peso”, “tenho vontade de beber”, “quero mandar mensagens desesperadas”, “sinto aperto no peito e penso que vou morrer”. Quanto mais específico, mais útil.

Segunda parte: reduzir o perigo imediato

Quando a crise envolve risco, a prioridade é reduzir perigo. Isso pode significar não ficar sozinho, afastar objetos ou substâncias que possam ser usados para autoagressão, entregar medicamentos a alguém de confiança, sair de perto de janelas, não dirigir, evitar álcool e drogas, sair de uma discussão violenta ou ir para um lugar mais seguro.

Essa parte do plano precisa ser direta. Em crise, a pessoa não deve negociar com impulsos perigosos. Se há vontade de se machucar, plano, acesso a meios ou sensação de que pode agir, é hora de chamar ajuda. Não é momento de provar força ou esperar “passar sozinho”.

Para algumas pessoas, reduzir perigo também significa proteger-se de mensagens e decisões impulsivas. Por exemplo: não terminar relacionamento por mensagem no auge da crise, não pedir demissão de madrugada, não dirigir para confrontar alguém, não publicar algo desesperado, não comprar impulsivamente, não misturar remédios e álcool.

Uma frase útil no plano é: “quando eu estiver em risco, minhas primeiras ações são: afastar meios de perigo, sair de perto de conflito, chamar alguém e procurar atendimento”. Segurança vem antes de explicações.

Terceira parte: usar estratégias de estabilização

Estratégias de estabilização são ações simples para ajudar o corpo e a mente a saírem do pico. Elas não precisam resolver o problema principal. Servem para atravessar os próximos minutos com menos risco. Em crise, ganhar dez minutos pode ser muito importante.

Algumas estratégias possíveis: sentar com os pés no chão, soltar o ar devagar, beber água, lavar o rosto, segurar um objeto frio, tomar banho, sair para um lugar com mais luz, diminuir barulho, desligar notificações, colocar uma música calma, escrever três frases sobre o que está sentindo, caminhar dentro de casa, olhar ao redor e nomear objetos.

Também pode ajudar usar frases curtas: “isso é uma crise”, “não preciso decidir agora”, “vou esperar a onda baixar”, “posso chamar ajuda”, “pensamento não é ordem”, “minha segurança vem primeiro”. Frases longas podem ser difíceis no auge da emoção. O plano deve trazer frases fáceis de lembrar.

Cada pessoa precisa testar o que ajuda. Para uma, respiração funciona. Para outra, olhar para a respiração aumenta ansiedade. Para uma, música acalma. Para outra, silêncio é melhor. O plano deve ser pessoal, não uma lista genérica copiada sem adaptação.

Quarta parte: pessoas que posso chamar

Um plano de segurança emocional precisa incluir pessoas. Crise gosta de isolamento. Quando a pessoa fica sozinha com pensamentos extremos, eles podem parecer mais verdadeiros. Uma voz de fora, calma e confiável, pode ajudar a trazer perspectiva e segurança.

Escolha pessoas específicas. Não escreva apenas “amigos” ou “família”. Escreva nomes e formas de contato. Por exemplo: “Maria, ligação”; “João, WhatsApp”; “minha irmã, ir até minha casa”; “vizinha do apartamento 302”; “colega que sabe da minha ansiedade”.

Também é importante combinar antes, se possível. Diga a essas pessoas: “às vezes eu tenho crises; posso te chamar quando eu estiver mal?”. Explique o que ajuda e o que não ajuda. Algumas pessoas querem apoiar, mas não sabem como. Um pequeno combinado evita confusão.

Nem todo mundo serve para estar no plano. Pessoas que julgam, expõem, gritam, minimizam ou pioram a crise talvez não sejam boas opções. Escolha quem consegue ser firme e acolhedor. Apoio não precisa ser perfeito, mas precisa ser minimamente seguro.

Quinta parte: lugares seguros

O plano também pode incluir lugares seguros. Um lugar seguro é qualquer ambiente onde a pessoa tem menos risco e mais chance de se estabilizar. Pode ser a sala de casa, a casa de um familiar, a portaria do prédio, a casa de uma amiga, uma unidade de saúde, uma praça movimentada durante o dia, um quarto sem objetos de risco ou qualquer espaço onde ela não fique isolada em perigo.

Em algumas crises, ficar no quarto sozinho pode piorar. Em outras, um quarto calmo pode ajudar. Por isso, é importante observar padrões. Onde você costuma piorar? Onde costuma melhorar um pouco? Que lugar reduz impulsividade? Que lugar permite pedir ajuda?

Se há risco de autoagressão, um lugar seguro geralmente não é o lugar mais isolado. Pode ser melhor ficar perto de alguém, em ambiente compartilhado, com meios de risco afastados. Se há violência doméstica, o lugar seguro pode ser fora de casa, na casa de alguém confiável ou em serviço especializado.

Escreva no plano: “quando eu estiver em crise, posso ir para…” e liste opções reais. Inclua também como chegar lá e quem pode acompanhar. Em crise, detalhes práticos importam.

Sexta parte: serviços profissionais e emergência

O plano deve incluir contatos de ajuda profissional. Isso pode envolver psicólogo, psiquiatra, clínica, serviço de emergência, pronto atendimento, hospital, SAMU, bombeiros, polícia em caso de violência, serviço local de saúde mental ou centros de apoio disponíveis na região.

Quando a crise não envolve risco imediato, mas a pessoa sente que precisa conversar com alguém agora, um psicólogo 24 horas online pode ajudar a organizar o momento, avaliar segurança e orientar os próximos passos. Se há risco físico, tentativa de autoagressão, intoxicação, violência, confusão intensa ou perigo imediato, procure emergência presencial.

Também é útil deixar dados importantes anotados: medicamentos em uso, alergias, contatos de emergência, endereço, nome de profissionais que acompanham, histórico de crises, estratégias que funcionaram antes. Se alguém precisar ajudar, essas informações economizam tempo.

Se a crise acontece em casal, com brigas, medo de abandono, ciúme, separação ou explosões emocionais, a terapia de casal 24 horas online pode ajudar quando há segurança para conversa. Se há ameaça, agressão ou medo, a prioridade é proteção individual e serviços de emergência ou rede especializada.

Sétima parte: o que não fazer durante a crise

Um bom plano também diz o que evitar. Em crise, algumas ações parecem aliviar, mas podem piorar depois. Por exemplo: beber para esquecer, usar drogas, dirigir em alta emoção, mandar mensagens impulsivas, se trancar com meios de risco, pesquisar sintomas por horas, confrontar alguém agressivo, tomar remédios sem orientação, postar despedidas ou tomar decisões definitivas.

O plano pode ter uma lista chamada “não fazer no pico”. Essa lista precisa ser escrita com antecedência, porque no auge da emoção a mente inventa justificativas. “Só hoje eu vou beber.” “Só vou mandar uma mensagem.” “Só vou dirigir para conversar.” “Só vou tomar mais um comprimido.” Essas frases podem ser perigosas.

Também é importante evitar discussões profundas no auge. Se a crise nasceu de uma briga, talvez a mente queira resolver tudo naquela hora. Mas um corpo em pânico ou raiva intensa não conversa bem. Melhor combinar: estabilizar primeiro, conversar depois.

A regra pode ser: “no pico da crise, eu não tomo decisões definitivas”. Decisões importantes devem esperar o corpo baixar, exceto decisões de segurança, como chamar ajuda, sair de perigo ou procurar atendimento.

O plano para crises de ansiedade e pânico

Em crises de ansiedade e pânico, o plano pode focar em reconhecer o corpo em alerta. A pessoa pode escrever: “quando meu coração acelerar, posso lembrar que meu corpo está em modo de ameaça; isso é desconfortável, mas pode passar”. Também pode listar ações: sentar, soltar o ar, olhar ao redor, não pesquisar sintomas, não fugir imediatamente se estiver em local seguro, chamar alguém se necessário.

Se há histórico de pânico, o plano pode incluir frases como: “sensação forte não é automaticamente perigo”, “não preciso controlar tudo”, “vou esperar a onda baixar”, “se houver sintoma novo ou grave, procuro avaliação médica”. Essa última parte é importante porque o plano não deve ensinar a ignorar saúde física.

Também pode haver passos de prevenção: dormir melhor, reduzir excesso de cafeína, comer regularmente, praticar exposição gradual, manter terapia, evitar álcool como forma de acalmar, fazer atividade física com orientação quando possível.

O objetivo não é nunca mais ter ansiedade. É saber o que fazer quando ela vier. Um plano bom reduz o medo da próxima crise porque a pessoa deixa de se sentir totalmente sem recursos.

O plano para pensamentos de autoagressão

Quando há pensamentos de se machucar, o plano precisa ser mais rigoroso. Pensamentos podem variar: alguns aparecem como intrusões assustadoras, outros vêm com vontade, plano ou intenção. Se há vontade de morrer, plano, preparo, acesso a meios ou sensação de que pode agir, procure ajuda imediata.

Nessa parte, o plano deve incluir: sinais de risco, pessoas que devem ser chamadas, meios que precisam ser afastados, lugares onde a pessoa não deve ficar sozinha, serviços de emergência e uma orientação clara: “não fico sozinho quando há risco”.

Também pode incluir razões para esperar. Não frases genéricas, mas razões pessoais: nome de pessoas amadas, animais, projetos, valores, fé, curiosidade sobre o futuro, compromisso com tratamento, lembrança de que crises anteriores passaram. Em momentos escuros, a pessoa pode não sentir esperança; por isso, a lista precisa estar pronta.

Essa parte deve ser feita com ajuda profissional sempre que possível. Não porque a pessoa não seja capaz, mas porque risco exige cuidado especializado. Se você está em risco agora, interrompa a leitura e procure ajuda imediata com alguém de confiança ou serviço de emergência.

O plano para brigas e impulsos no relacionamento

Crises em relacionamentos podem gerar impulsos fortes: mandar muitas mensagens, ameaçar terminar, implorar, gritar, sair dirigindo, bloquear e desbloquear, expor nas redes, procurar vingança ou se humilhar para evitar abandono. No pico, tudo parece urgente.

Um plano de segurança para relacionamento pode incluir uma pausa combinada. Por exemplo: “quando a conversa subir demais, cada um faz pausa de vinte minutos e volta em horário combinado”. A pausa não deve ser abandono. Deve ser uma forma de impedir que o corpo em defesa destrua a conversa.

Também pode incluir regras: não discutir quando há álcool, não discutir dirigindo, não segurar a pessoa fisicamente, não ameaçar autoagressão para impedir separação, não usar filhos como mensageiros, não invadir celular, não continuar conversa se houver gritos ou intimidação.

Quando o casal não consegue sair sozinho do ciclo, a terapia de casal pode ajudar a criar acordos mais seguros. Mas, se há violência, ameaça ou medo, o plano deve priorizar proteção, distância segura e ajuda especializada, não reconciliação forçada.

O plano para noites difíceis

Muitas crises pioram à noite. O silêncio aumenta pensamentos, a solidão pesa, o cansaço reduz clareza e a pessoa pode sentir que não há ninguém disponível. Por isso, o plano precisa ter uma parte noturna.

Essa parte pode incluir: deixar celular carregado, ter contatos de emergência visíveis, evitar álcool, não pesquisar sintomas de madrugada, sair da cama se estiver em ruminação intensa, ir para um cômodo mais seguro, mandar mensagem para alguém combinado, usar um áudio calmo, tomar banho, beber água, anotar uma preocupação e adiar decisões para o dia seguinte.

Também pode ter uma frase: “madrugada não é boa hora para decidir minha vida”. Isso é importante porque a mente cansada costuma ser mais catastrófica. Problemas reais podem ser cuidados de manhã com mais apoio e luz.

Se a noite vem com pensamentos de morte, vontade de se machucar, uso de substâncias ou sensação de perigo, não espere amanhecer sozinho. Chame alguém, procure atendimento e acione emergência se necessário.

Como montar o plano na prática

Você pode montar o plano em uma folha, no bloco de notas do celular ou em um cartão pequeno. O importante é que esteja acessível. Um plano escondido em uma pasta difícil não ajuda no auge da crise.

Uma estrutura simples pode ser:

  • Meus sinais de alerta: o que percebo no corpo, na mente e no comportamento.
  • O que eu faço primeiro: ações imediatas de segurança.
  • O que me ajuda a estabilizar: respiração, ambiente, água, banho, escrita, aterramento.
  • Pessoas que posso chamar: nomes, telefones e função de cada uma.
  • Lugares seguros: onde posso ficar com menos risco.
  • Profissionais e emergência: contatos e orientações.
  • O que não fazer no pico: ações impulsivas a evitar.
  • Razões para esperar: motivos pessoais para atravessar a onda.

Depois de montar, revise com alguém de confiança ou com um profissional. Às vezes, a pessoa esquece algo importante. Outra pessoa pode ajudar a tornar o plano mais prático.

Como familiares e amigos podem usar o plano

Familiares e amigos podem ajudar muito quando conhecem o plano. Em vez de discutir, julgar ou improvisar, podem perguntar: “qual é o próximo passo do seu plano?”. Isso devolve direção. Também evita que a rede alimente rituais ansiosos, como dar garantias infinitas ou entrar em discussões no pico.

Quem apoia precisa saber que acolher não é concordar com pensamentos extremos. Se a pessoa diz “minha vida acabou”, você não precisa discutir longamente. Pode dizer: “eu vejo que parece assim agora; vamos seguir o plano e manter você seguro”.

Também é importante que a rede saiba quando acionar emergência. Se há risco de vida, não é traição chamar ajuda. É cuidado. Não prometa segredo quando a pessoa pode se machucar ou machucar alguém.

Ao mesmo tempo, quem apoia também precisa de limites. Ninguém deve ser a única fonte de segurança de outra pessoa. O ideal é haver uma rede: profissionais, familiares, amigos, serviços e estratégias pessoais. Apoio sustentável protege todos.

Revisar o plano depois da crise

Depois que a crise passa, o plano deve ser revisado. Não como julgamento, mas como aprendizado. Pergunte: o que ajudou? O que não ajudou? Quem atendeu? Que estratégia foi realista? O que faltou? O que piorou? Houve risco? Preciso de mais apoio profissional?

Algumas pessoas descobrem que uma estratégia bonita no papel não funciona na prática. Outras percebem que um amigo não é tão disponível quanto imaginavam. Outras descobrem que precisam de atendimento mais estruturado. Isso não é fracasso. É informação.

Também é importante reconhecer vitórias. Se a pessoa teve uma crise e não se machucou, pediu ajuda, evitou dirigir, não mandou mensagem impulsiva, ficou viva, esperou a onda passar ou procurou atendimento, isso importa. Em crise, sobreviver com segurança já é um passo enorme.

O plano deve mudar com a vida. Novos contatos, novos profissionais, novos gatilhos, novos recursos. Ele não é documento fechado. É uma ferramenta viva.

Quando o plano não basta

Um plano de segurança emocional ajuda, mas não substitui tratamento quando o sofrimento é frequente, intenso ou perigoso. Se a pessoa vive em crises, tem pensamentos de morte, se machuca, usa substâncias para suportar, está em relação violenta, tem pânico incapacitante, depressão intensa ou perda de contato com a realidade, precisa de avaliação profissional.

Também não basta ter plano se ninguém sabe dele. Em situações de risco, guardar tudo sozinho pode ser perigoso. O plano deve estar conectado a pessoas e serviços reais. Segurança emocional não é apenas uma técnica interna; é também rede.

Se você já fez planos e ainda sente que pode agir contra si, procure ajuda agora. Vá a um serviço de emergência, chame alguém, entregue meios de risco, fique em local acompanhado. Não espere a crise provar que é grave. O medo de incomodar não deve ser maior que a proteção da vida.

O plano é uma ponte, não o destino inteiro. Ele ajuda a atravessar o pior momento para que o cuidado continue depois.

Um exemplo simples de plano

Um exemplo pode ser assim: “Quando eu começar a pensar que não aguento mais, quando meu peito apertar e eu tiver vontade de me isolar, vou considerar que estou entrando em crise. Primeiro, vou sair do quarto e ir para a sala. Vou afastar remédios e objetos de risco. Vou mandar mensagem para Ana dizendo: ‘estou em crise, pode ficar comigo por ligação?’. Vou beber água, sentar com os pés no chão e esperar vinte minutos antes de qualquer decisão. Se eu sentir vontade de me machucar ou tiver plano, vou chamar emergência ou pedir para alguém me levar ao pronto atendimento”.

Outro exemplo para crise de pânico: “Quando meu coração acelerar e eu pensar que vou morrer, vou lembrar que isso já aconteceu antes e passou. Vou sentar, soltar o ar, olhar ao redor e não pesquisar sintomas durante a crise. Se for diferente do meu padrão ou vier com sinais graves, procuro atendimento médico. Se for meu padrão de pânico, sigo meu plano e aviso alguém”.

Para briga de casal: “Quando a conversa virar grito, vou pedir pausa. Não vou continuar discutindo se houver ameaça, xingamento ou medo. Vou sair do ambiente por vinte minutos, respirar, não dirigir alterado e voltar apenas se houver segurança. Se houver risco, vou procurar ajuda”.

O seu plano não precisa ser igual a esses. Ele precisa funcionar para sua realidade. Quanto mais simples e específico, maior a chance de ser usado.

Segurança emocional também se constrói fora da crise

O plano é essencial para momentos agudos, mas a segurança emocional também depende do cotidiano. Sono, alimentação, rotina, tratamento, limites, apoio social, redução de substâncias, acompanhamento médico quando necessário e conversas honestas diminuem a chance de crises chegarem tão fortes.

Também ajuda conhecer padrões. Quais situações costumam anteceder crises? Brigas? Falta de sono? Álcool? Isolamento? Excesso de trabalho? Redes sociais? Contato com determinada pessoa? Datas difíceis? Sintomas físicos? Quanto mais a pessoa entende o caminho até a crise, mais cedo pode intervir.

Prevenção não significa controlar tudo. Significa cuidar dos pontos mais sensíveis. Uma pessoa que sabe que fica vulnerável depois de noites sem dormir pode priorizar sono. Quem sabe que álcool aumenta impulsividade pode evitar beber em fases difíceis. Quem sabe que isolamento piora pode combinar check-ins com alguém.

Segurança emocional é construída com repetição. Pequenos cuidados fora da crise tornam o plano mais forte dentro da crise.

Você merece ter um plano antes de precisar dele

Muita gente só pensa em segurança quando já está no limite. Mas ninguém precisa esperar o pior momento para se proteger. Ter um plano não significa que você quer entrar em crise. Significa que você se respeita o bastante para se cuidar se a crise vier.

O plano também comunica uma mensagem importante: “minha vida importa mesmo quando minha mente diz o contrário”. Em momentos de sofrimento intenso, talvez você não consiga sentir esperança. Então deixe a esperança escrita antes. Deixe contatos prontos. Deixe passos simples. Deixe uma ponte para você mesmo.

Crises emocionais podem ser muito convincentes, mas elas mudam. A onda sobe, atinge um pico e pode descer. Com apoio, proteção e tratamento, a pessoa pode atravessar momentos que pareciam impossíveis.

Um plano de segurança emocional não elimina a dor, mas aumenta a chance de você chegar vivo, protegido e acompanhado ao outro lado da crise. E isso é o mais importante: primeiro segurança, depois explicação, depois reconstrução.

Leituras relacionadas

Referências bibliográficas

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